Débora Falabella aborda o aumento dos casos de feminicídio em ‘Pele de Rinoceronte’, filme que revisita o julgamento de Ângela Diniz e questiona respostas da justiça brasileira
Débora Falabella voltou a encenar as complexidades da violência contra a mulher em “Pele de Rinoceronte”, filme que estreou no Festival de Gramado, e que liga histórias pessoais a um marco histórico do país.
No longa, Falabella interpreta Helena, uma repórter dos anos 1970, fria diante das vítimas até se ver alvo de assédio, e que passa a investigar um crime que chocou o país, em uma trama que traz à tona a naturalização da violência contra a mulher daquela época.
Ao comentar o presente do país, Falabella afirmou, “Temos leis que nos protegem mais, mas é muito estranho ver que esses casos [de feminicídio] só aumentam”, e lamentou que “A sensação é de enxugar gelo”, conforme informação divulgada pelo G1.
Personagens e trama, reencontro com a memória
Em cena, Helena é uma repórter que cobre assassinatos de mulheres no Rio de Janeiro nos anos 1970, e que, por ser solteira e independente, é vista com frieza pela sociedade, um espelho do machismo da época.
Para escapar do assédio do próprio editor, Helena viaja até a praia onde aconteceu um homicídio, no caso de um empresário que matou a namorada com quatro tiros, todos na cabeça, e que inspira o roteiro de Marcello Ludwig Maia.
Ao entrelaçar a história de Helena com a da advogada Maria Thereza, vivida por Naruna Costa, o filme explora como eram tratados os crimes de ódio contra mulheres antes de o feminicídio constar no Código Penal.
Do caso Ângela Diniz ao debate atual
“Pele de Rinoceronte” é inspirado no caso de Ângela Diniz, socialite assassinada em 1976, cujo julgamento se tornou um marco na luta contra a violência de gênero no país.
O enredo lembra que, após o empresário Raul Fernando do Amaral Street, conhecido como Doca Street, receber inicialmente uma pena branda pelo crime, a mobilização do movimento feminista levou a um novo julgamento, que o condenou a 15 anos de prisão.
No filme, Falabella vê sua personagem como um paralelo: “Vejo minha personagem como um paralelo da Ângela, mulher que queria viver livremente de uma forma que a sociedade não compreendia”, e a narrativa busca ligar memória e urgência do presente.
Direção, intenção e críticas, por que o tema importa
O diretor Marcello Ludwig Maia recorda que cresceu em um ambiente marcado por conversas jurídicas sobre casos como esse, e afirma, “Considero esse o grande tema brasileiro, Enquanto não pararem de matar as mulheres, não vamos a lugar algum”.
Maia e a equipe procuram mostrar as nuances da violência, mostrando como as violências simbólicas e sutis alimentam uma cultura que normalizou mortes de mulheres por décadas.
Ao discutir a tipificação do crime, o filme reforça que hoje o feminicídio tem nome, mas que nomear não resolve por si só, e que é preciso ação efetiva das instituições e da sociedade.
Recepção em Gramado e cenas marcantes
Falabella divide o protagonismo com Naruna Costa, e a cena do tribunal, em que Maria Thereza ensaia a acusação, foi ovacionada pelo público no Palácio dos Festivais.
Sobre a construção da personagem, Costa diz, “As violências sutis são muito presentes no filme, e as personagens vão despertando ao longo da história, Espero que a plateia vá se identificando também, e se posicionando de forma não conformista”.
O filme sela um diálogo entre passado e presente, lembrando que a luta contra o feminicídio é contínua, e que a visibilidade, representada pela arte e pela mobilização social, ainda tem papel central para transformar respostas institucionais e culturais.

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