Venda nos títulos de dívida de longo prazo dos EUA prossegue, mesmo depois do Tesouro anunciar que vai “pelo menos dobrar” recompras entre 10 e 30 anos, e o rendimento de 30 anos sobe, elevando preocupações fiscais
Uma nova onda de vendas atingiu os títulos de dívida de longo prazo dos Estados Unidos nesta quinta-feira, 20, com os investidores renovando apostas em rendimentos mais altos, apesar da intervenção do Tesouro.
O rendimento do título do Tesouro americano de 30 anos subiu 0,06 ponto percentual, para 5,24%, revertendo grande parte da queda registrada no dia anterior, e o dólar também oscilou em resposta ao movimento.
As informações e os dados citados a seguir foram divulgados pelo Financial Times, conforme informação divulgada pelo Financial Times
O que fez o Tesouro e por que não foi suficiente
O Tesouro anunciou na quarta-feira que iria “pelo menos dobrar” suas compras de títulos com vencimento entre 10 e 30 anos, elevando essas operações de US$ 2 bilhões para “pelo menos” US$ 4 bilhões, em uma tentativa de reduzir a pressão sobre os rendimentos de longo prazo, segundo o Financial Times.
Mesmo com a ação, o efeito foi limitado. Logo após comentários do secretário do Tesouro, Scott Bessent, os papéis voltaram a sofrer uma modesta onda de vendas, mantendo os rendimentos próximos das máximas do dia.
O gestor Eoin Walsh, da TwentyFour Asset Management, avaliou de forma direta, dizendo que, “Não acreditamos que isso [a intervenção] possa funcionar isoladamente”, e que “Intervenções como essa parecem um curativo”.
Impacto nos rendimentos e no dólar
O rendimento dos gilts britânicos de 30 anos também subiu, e o movimento global mostrou que a pressão não ficou restrita aos Treasuries americanos. No caso dos EUA, o rendimento de 30 anos avançou 0,06 ponto percentual para 5,24%, depois de ter caído 0,09 ponto percentual no pregão anterior.
O dólar, que havia caído fortemente após o anúncio de quarta-feira, recuou até 0,3% nesta quinta, depois de uma queda de 0,8% na véspera. Mais tarde, recuperou cerca de metade das perdas e passou a operar em baixa de 0,1%.
Analistas alertam para a necessidade de consolidação fiscal
Muitos analistas apontaram que as recompras anunciadas pelo Tesouro provavelmente não serão suficientes para acalmar preocupações mais profundas sobre a dívida e os déficits americanos. Joe Brusuelas, economista-chefe da RSM US, afirmou, “Sem uma mudança em direção à consolidação fiscal , impostos mais altos, um ritmo mais lento de gastos do governo ou uma redução efetiva das despesas, como ocorreu nos anos 1990, as recompras se mostrarão apenas temporárias”.
Analistas do MUFG disseram haver a percepção de que o anúncio não tinha um plano estratégico e alertaram para o risco de que a medida seja “contraproducente” e reduza o apetite por ativos americanos ou pelo dólar, ou por ambos.
Keith Patton, da Columbia Threadneedle Investments, considerou o plano “minúsculo” em comparação com as ações do Fed, e reforçou que “essas intervenções só funcionam se forem acompanhadas de iniciativas importantes de política econômica, especialmente em relação aos gastos”.
Perspectivas fiscais e sinais do Tesouro
Bessent tentou acalmar o mercado ao afirmar que o déficit talvez já tenha atingido seu pico, e que há “uma chance muito boa” de início de redução do déficit, citando novas receitas de tarifas e o combate a fraudes planejado pelo vice-presidente JD Vance.
O secretário também disse que acredita que “os rendimentos não refletem os fundamentos subjacentes” e que “a liquidez, especialmente no prazo de 30 anos, é muito baixa”. Ele reiterou que as recompras do Tesouro “podem ser superiores a US$ 4 bilhões por emissão”.
Dados do Departamento do Tesouro mostraram que a dívida nacional dos Estados Unidos alcançou o recorde de US$ 40 trilhões. O governo tem registrado déficits equivalentes a cerca de 6% do PIB nos últimos anos, e não deve reduzi-los tão cedo, em parte por cortes de impostos e pela promessa de aumentar os gastos com defesa em mais de 50%, para US$ 1,5 trilhão por ano.
Kit Juckes, do Société Générale, alertou que, “À medida que o nível da dívida pública dos Estados Unidos chega a 100% do PIB e os déficits orçamentários permanecem elevados”, a disposição de investidores estrangeiros para comprar ativos americanos “será uma questão cada vez mais importante” e que isso pode forçar os EUA a apertar a política fiscal, aceitar custos de financiamento mais altos, ou permitir que o dólar se enfraqueça.
O que acompanhar nos próximos dias
Os investidores devem observar se o Tesouro anuncia medidas adicionais ou um plano mais estratégico para a consolidação fiscal, e também ficar atentos a novos dados de fluxo e liquidez no segmento de títulos de prazo mais longo.
Enquanto isso, a reação dos mercados a novas declarações do governo, e a leitura dos dados sobre déficits e oferta de títulos, devem determinar se a intervenção se mostrará apenas um remédio temporário, ou o início de um esforço mais amplo para conter os rendimentos de longo prazo.
Todas as informações, citações e números apresentados neste texto foram obtidos conforme informação divulgada pelo Financial Times.

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