Ao longo de 60 dias, a rotina de muitos venezuelanos no Brasil se dividiu entre o trabalho, a tentativa de reconstruir a vida e a impossibilidade de encerrar um luto sem corpo e sem respostas.
Familiares acompanham buscas por vídeo, consultam listas de desaparecidos e se organizam para colher amostras de DNA, na esperança de identificar parentes entre escombros e destroços.
Os números e relatos que descrevem essa dor já foram compilados por veículos de imprensa, e a tragédia mobiliza milhares, conforme informação divulgada pela VEJA.
Buscas, registros online e o caminho do DNA
Muitos que deixaram a Venezuela acompanham diariamente sites criados para reunir informações sobre mortos e sobreviventes, como o Venezuela Te Busca e o Desaparecidos Terremoto Venezuela. A checagem constante é uma forma de tentar controlar a angústia, ainda que frágil e incerta.
Além dos sites, famílias e organizações começaram a coletar amostras de DNA, estratégia que pode ser decisiva para identificar corpos soterrados, quando a recuperação das vítimas for possível.
No terreno, sobreviventes reviram escombros com pás, picaretas e até com as mãos, tentando ao menos oferecer um funeral digno, enquanto a expectativa por achados diminui, mas não desaparece.
Cifras da tragédia e da migração
Os números ajudam a dimensionar o impacto, e eles são diretos, mais de 6 400 mortes provocadas pelo terremoto, e Ao menos 500 000 imigrantes que pediram refúgio ao Brasil para escapar da fome e da miséria que agravam a tragédia.
Além disso, Cerca de 60 000 imóveis foram danificados em decorrência da precariedade das construções erguidas na pobreza, e 107 acampamentos onde mais de 20 000 desterrados tentam reerguer a vida.
Esses dados mostram por que muitos venezuelanos no Brasil sentem-se impotentes, vendo o país natal despedaçado à distância.
Relatos pessoais, culpa e esperança
O drama ganha rosto em relatos como o de Daniel Medina, 28 anos, que não tem notícias do pai desde 24 de junho, e resume a espera com palavras cruas, “A esperança de encontrar meu pai com vida diminui cada vez mais, mas nunca acaba”.
Gustavo Oliveira, 20 anos, que vive no Ceará, lembra do achado da avó durante uma transmissão, e confessa a angústia de quem ficou, “Sinto uma culpa enorme por estar aqui, em segurança, enquanto eles passam por tudo isso”.
O engenheiro Eudomar Enrique Morales, 48 anos, que mora no Rio de Janeiro desde 2020, acompanhou funerais pelo celular e diz, “Estou juntando dinheiro para voltar e cuidar de quem precisa de mim”.
A técnica de enfermagem María Sánchez, 32 anos, revive a última chamada por vídeo com o tio, ela lembra que, no momento em que falavam, o chão começou a balançar, e a cena da fuga mudou tudo, “Vou tirar sua avó daqui”, disse ele, antes de tentar resgatar outras pessoas.
Luto ambíguo e impactos psicológicos
Especialistas descrevem a situação como uma experiência de perda ambígua, quando não há confirmação da morte e a vida fica em suspenso, dificultando atribuir significado ao que está acontecendo.
Segundo psicólogos, é comum que a sensação de culpa apareça junto com a saudade, mesmo sabendo que um desastre natural não poderia ter sido evitado, porque a partida precoce para buscar melhores condições de vida permanece na memória como escolha que expõe parentes ao risco.
O luto é, para muitos, coletivo e prolongado, e exigir cuidados de saúde mental e atenção das redes de apoio, tanto no Brasil como em pontos de apoio humanitário na própria Venezuela.
Comparação internacional e desafios da reconstrução
Em comparação, um tremor de mesma magnitude na Colômbia, de 7,4 graus na escala Richter, causou 294 mortos, segundo relatos, em grande parte porque o epicentro atingiu regiões menos populosas e o país estava mais preparado.
Esse contraste ressalta problemas estruturais, como a precariedade das construções e a falta de investimentos em prevenção, que potencializaram a destruição e aumentaram o número de pessoas sem lar.
Enquanto a reconstrução não avança, milhares de famílias continuam a buscar informações, a organizar coleta de DNA e a viver a incerteza, com o cotidiano de quem migrou se misturando ao trauma de quem ficou.
O cenário impõe um desafio humano e logístico, a necessidade de apoio internacional, e um esforço conjunto para identificar vítimas, amparar sobreviventes e cuidar da saúde mental dos venezuelanos no Brasil que carregam essa dor dia após dia.

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