O fenômeno dos “nepo pais” ganha força, com figuras que entram no mercado dos filhos, geram debates públicos e mudam relações familiares e profissionais
Nos últimos anos surgiu com força a imagem dos “nepo pais”, pais que passam a trabalhar na mesma área dos filhos, seja para apoiar, gerir ou aproveitar oportunidades no setor.
O caso em torno de Myles Lewis-Skelly, do Arsenal, e da mãe dele, Marcia Lewis, trouxe o tema ao debate público, por mistura de esporte, negócios e curiosidade dos torcedores.
As histórias vão além do futebol, alcançando Hollywood, educação e iniciativas sociais, mostrando diferentes motivações e reações ao fenômeno,
conforme informação divulgada pelo Financial Times.
Marcia Lewis, o Arsenal e a nova presença dos pais nos bastidores do esporte
Marcia Lewis deixou uma carreira em bancos como especialista em treinamento para entender melhor o mercado do futebol, segundo o relato disponível, e fez um mestrado em negócios do futebol, além de se inscrever para obter uma licença de agente da Fifa.
Ela criou uma organização para ajudar pais a navegar pelo mundo dos negócios esportivos e negociou contratos em nome do filho, ações que provocaram especulações sobre seu papel nas conversas com clubes.
Sobre a atenção, o comentarista e ex-jogador do Arsenal Ian Wright disse, “Os torcedores do Arsenal precisam ficar tranquilos [em relação] à mãe dele”.
O episódio mostra como o envolvimento direto de pais na carreira dos filhos pode ser visto ora como proteção, ora como potencial fonte de conflito com torcedores e rivais.
De Hollywood às redes, exemplos e reações públicas
O fenômeno também aparece em entretenimento, com pais que passam a atuar nas mesmas áreas dos filhos ou se tornam figuras públicas, e isso provoca debates sobre mérito e favorecimento.
Casos citados incluem Jeff Barker, que anunciou um curta após o sucesso do filho Curry Barker, e a observação crítica de que projetos podem ser avaliados pelo público como “pegando carona” no êxito dos filhos.
O comediante Jack Whitehall já comentou que os pais, em alguns casos, “ficaram famosos às minhas custas”. Outro exemplo citado é Romesh Ranganathan, que transformou a mãe, Shanti, em personalidade ao incluí-la em seus programas.
A própria Gwyneth Paltrow disse ter tido “uma sorte extraordinária por receber oportunidades desde cedo, provavelmente em parte porque sou uma das primeiras nepo babies”, frase que ilustra o reconhecimento público de privilégios geracionais.
Motivações, mentoria reversa e mudança de carreira na meia-idade
Nem sempre a presença dos pais nas mesmas profissões dos filhos é vista só como busca por vantagem, muitas vezes há aprendizagem mútua e adaptação de percurso profissional.
Marc Freedman, fundador da Co-Generate, identificou casos de pais que seguiram os filhos em profissões, inclusive entre pessoas “de origens mais modestas”, e prevê que a tendência possa crescer, à medida que a vida profissional se prolonga e pessoas consideram mudanças na meia-idade.
A ideia da mentoria reversa, em que profissionais mais velhos aprendem com mais jovens, ganhou força desde os anos 1990 e hoje é prática comum em corporações, apontando para ganhos bilaterais em relações profissionais intergeracionais.
Educação e programas que aproximam trajetórias de pais e filhos
Iniciativas sociais também refletem esse movimento, com programas que permitem a pais e filhos estudarem juntos, mudando dinâmicas familiares.
Nos Estados Unidos, a organização sem fins lucrativos Hope Chicago oferece a estudantes e seus pais a oportunidade de cursar o ensino superior sem contrair dívidas, com duplas que relatam mudança na relação pessoal e nas expectativas.
Marilinet e Hailey Morales, participantes do programa, dizem que estudar ao mesmo tempo as fez se sentir mais como irmãs ou colegas, e que Hailey “passou a compreender melhor por que a mãe insistia tanto em seus estudos”.
Outra estudante, Kelsey Ingram, relata que ao estudar cibersegurança com a mãe, Marcia, criou-se uma competição amistosa, enquanto a mãe aprendeu a “não se martirizar se tirar uma nota menor”.
Há também relatos de casos extremos e constrangidos, como o de uma mulher que seguiu o filho para a polícia, e que afirma que “fará de tudo [para evitar] chamar a própria filha de senhora”, destacando como papéis e etiquetas familiares podem se distorcer.
O que a tendência revela sobre trabalho, família e vantagem
O crescimento dos “nepo pais” revela tensões entre percepção pública de favoritismo e a realidade de famílias que buscam apoio mútuo e requalificação profissional.
Em alguns setores, entrada e progresso parecem mais baseados em conexões, alimentando ressentimento, enquanto outras carreiras mantêm caminhos mais estruturados, o que explica parte da frustração pública.
Observa-se que o fenômeno pode combinar elementos de proteção familiar, ambição profissional e adaptação a novas oportunidades, e que as reações variam conforme visibilidade do setor e narrativa pública.
Ao mesmo tempo, histórias de mentoria, redes de apoio e programas comunitários mostram que quando bem orientado, o envolvimento de pais nas trajetórias dos filhos pode ampliar acesso e transformar relações, em vez de apenas reproduzir privilégios.

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