Na sabatina, Zema foi do discurso do Estado mínimo à defesa de funções públicas essenciais, mostrando como o Brasil concreto corrige propostas sobre Caixa, privatização e programas sociais

Romeu Zema chegou à sabatina com um roteiro conhecido, pregando corte de gastos, reforma administrativa e privatizações, e com a promessa antiga de “privatizar tudo”.

Ao longo da entrevista, porém, as perguntas sobre casos concretos obrigaram ajustes práticos, e posições ideológicas foram calibradas frente às necessidades do dia a dia.

O efeito foi claro, quanto mais o debate saiu do Estado abstrato para o Brasil real, menos mínimo ficou o Estado proposto por Zema, conforme informação divulgada pelos jornais O GLOBO e Valor e pela rádio CBN.

A mudança sobre a Caixa e a tensão entre mercado e função social

Um dos exemplos mais reveladores foi a Caixa. Em maio Zema havia defendido a ideia de privatizar grandes estatais, e em entrevistas recentes voltou a citar a vontade de privatizar Petrobras, Banco do Brasil e Caixa.

Na sabatina, contudo, ele respondeu que não privatizaria nenhuma das duas, ao ser questionado sobre Caixa e Embrapa, e foi além ao dizer que a Caixa funciona como uma espécie de “braço do Ministério da Assistência Social”.

Essa mudança não é apenas tática de campanha, é o Brasil concreto impondo limites à teoria, e obrigando a distinguir onde o mercado atua sozinho e onde a presença pública é imprescindível.

Programas sociais, saúde e educação, quando cortar custa caro

Sobre programas sociais, Zema afirmou que eles são essenciais e devem ser mantidos, embora defenda um pente-fino contra fraudes.

Na Saúde e na Educação, seu discurso deixou de ser apenas menos gasto, para propor que a distribuição de recursos leve em conta critérios demográficos e as diferentes necessidades dos municípios.

Essa posição dialoga com um eleitor que, na prática, aprendeu que o Estado pode ser ineficiente e indispensável ao mesmo tempo, e que cortes mal desenhados penalizam quem mais precisa.

O eleitor da classe C e a tradução de planilha para boleto

Zema acertou quando relacionou gasto público, juros altos e prestações mais caras de bens financiados, falando uma linguagem que atinge a maioria.

Como registrou a cobertura, “O brasileiro não compra ‘equilíbrio fiscal’. Compra geladeira. Não paga ‘prêmio de risco’. Paga prestação.” Essa imagem ajuda a entender por que argumentos técnicos soam distantes para quem vive no dia a dia.

Pesquisas mencionadas na cobertura, como as do instituto Locomotiva, mostram que o eleitor da classe C não se encaixa na velha dicotomia entre Estado mínimo ou máximo, ele quer serviços que funcionem quando precisar.

Cortar qual gasto, e o desafio político de 2026

A pergunta que fica é prática, cortar qual gasto? Se for fraude, privilégio e desperdício, há ampla audiência. Se a consequência for mais demora no SUS, creche sem vaga ou polícia que não chega, a conversa muda.

Zema tem razão ao dizer que um Estado caro e ineficiente pune os pobres, seu desafio é reconhecer que a ausência do Estado os pune antes, e com mais dureza.

A eleição de 2026 não será um plebiscito abstrato entre Estado mínimo e Estado máximo, será uma disputa sobre qual Estado aparece quando a vida aperta, e a sabatina mostrou que, quanto mais a conversa entrou no Brasil real, mais modulado ficou o projeto de Zema.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *