Crescimento da recuperação judicial no Brasil alcança novo patamar, 6.341 empresas na base restrita ao final de junho, alta semestral em cenário de juros e crédito caro
A presença de grandes nomes entre os processos de reestruturação dá visibilidade à deterioração financeira, enquanto micro, pequenas e médias empresas ampliam o peso do problema.
O aumento no número de recuperações ocorre em um ambiente de custos de crédito elevados e dificuldade para renegociar dívidas acumuladas, pressionando cadeias produtivas e empregos.
Os dados têm origem no Monitor RGF-BIZDOC, que reúne levantamentos sobre a evolução das recuperações e falências no país, conforme informação divulgada pelo Monitor RGF-BIZDOC.
Estoque em alta e mudança no perfil da crise
Segundo o levantamento, Ao final de junho, 6.341 companhias estavam nessa situação na base restrita do levantamento, que exclui microempresas, filiais e negócios inativos. O número é o maior da série histórica do Monitor RGF-BIZDOC.
O estoque cresceu 6,2% no primeiro semestre, abaixo dos 7,3% registrados no mesmo período de 2025, e, na base completa, que reúne todos os CNPJs com registro de recuperação judicial, a alta chegou a 8%.
O levantamento mostra que o crescimento das recuperações começa a desacelerar entre empresas grandes e muito grandes, mas ganha força entre micro, pequenas e médias companhias, alterando o perfil da insolvência no país.
Braskem, Oi e o impacto dos grandes casos
Casos de grandes empresas ajudam a dar dimensão ao ambiente de deterioração financeira. A Braskem passou a preparar uma recuperação extrajudicial depois de buscar proteção contra credores, em meio a uma combinação de crise global no setor, dívida elevada e problemas específicos da companhia.
A alavancagem da Braskem, relação entre a dívida líquida e a geração de caixa, saltou de 0,94 vez em 2021 para 14,74 vezes em 2025. No primeiro trimestre de 2026, alcançou 16,81 vezes. A dívida líquida da companhia é estimada em aproximadamente 9,4 bilhões de dólares.
Além do endividamento em dólar, a empresa enfrenta dependência da nafta, passivos relacionados ao afundamento do solo em Maceió e dificuldades em operações no México. A Braskem foi a única entre as principais do setor a chegar ao default e à proteção contra credores, segundo o Monitor.
Agro e construção, setores com pior evolução
O agronegócio apresenta a pior evolução financeira entre os setores analisados. O Monitor identificou 1.263 empresas do segmento em recuperação judicial, aumento de 21,4% no primeiro semestre e de 66% em doze meses. Uma em cada cinco empresas em recuperação pertence ao agro ou à sua cadeia.
Na construção civil, 1.105 CNPJs estavam em recuperação judicial ao final de junho, alta de 5,7% em doze meses. O setor também contabiliza 179 empresas falidas, das quais 94 atuavam na construção de edifícios.
O comportamento difere entre incorporadoras e empreiteiras, com as primeiras recorrendo à recuperação para preservar imóveis e projetos, enquanto empreiteiras, com margens mais estreitas, apresentam maior frequência de falências.
Falências, recuperação extrajudicial e o que esperar
As falências também voltaram a crescer em 2026, depois de permanecerem praticamente estáveis no ano passado, aponta o Monitor. O movimento ocorre em um ambiente de juros elevados, crédito caro e dificuldades para renegociar dívidas acumuladas.
Entre as grandes companhias, a recuperação extrajudicial vem ganhando espaço, por permitir negociações mais rápidas e segmentadas com credores, ainda que com proteção menos ampla que a recuperação judicial. Casos citados no levantamento incluem Raízen, GPA e Oncoclínicas.
O Monitor destaca ainda episódios como o da Rossi Residencial, cujo plano foi aprovado em 2026, e a PDG Realty, cuja reestruturação envolve passivo estimado em 5,7 bilhões de reais. Para empresas menores, a combinação de juros altos e crédito mais caro deve manter a pressão sobre solvência e liquidez.
O quadro reforça a necessidade de atenção de investidores, credores e formuladores de políticas, porque a concentração de recuperações em setores críticos, como agro e construção, pode gerar efeitos em cadeia ao longo de 2026 e 2027.

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