Crise do diesel, pico do plantio de soja e colheita no hemisfério norte elevam demanda, pressionam importações do Brasil e criam risco de subida de preços nos EUA
O Brasil começa a temporada de plantio de soja em um momento de pressão sobre o abastecimento de combustíveis, com impactos potenciais para agricultores e mercados globais.
A sobreposição da safra de plantio no Hemisfério Sul com a colheita no Hemisfério Norte cria um pico sazonal de demanda por diesel, que já enfrenta restrições por conflitos e mudanças nas rotas comerciais.
As informações usadas nesta reportagem são baseadas em apuração da Bloomberg, conforme informação divulgada pela Bloomberg.
Por que a crise do diesel está se agravando
A crise do diesel é resultado de uma combinação de fatores, entre eles a reorganização de fluxos de petróleo após incidentes no Estreito de Ormuz e restrições de oferta causadas por conflitos internacionais.
A Rússia, um dos principais fornecedores de diesel, proibiu exportações enquanto refinarias enfrentam ataques, e isso apertou ainda mais os mercados mundiais.
Em julho, quando a Rússia proibiu as exportações, o Brasil comprou a maior quantidade de diesel dos EUA em quase quatro anos, de acordo com dados alfandegários do país compilados pela Bloomberg.
Ao mesmo tempo, outros fornecedores, como Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, têm sua capacidade limitada pelo tráfego intermitente no Estreito de Ormuz, o que reduz alternativas rápidas para suprir a demanda brasileira.
As refinarias brasileiras estão operando perto de 95% de utilização, “de forma bastante eficiente”, conforme afirmou Susan Bell, vice-presidente sênior de pesquisa de downstream da Rystad Energy, citada pela Bloomberg, mas ainda assim o país precisa importar diesel para atender à demanda.
Impacto direto no plantio de soja e nos agricultores
Para produtores como Irineu Orth, que planeja semear 22.000 acres, o combustível é insubstituível, e os custos estão comprimindo margens com força.
“Tudo o que nós, agricultores, fazemos, de uma forma ou de outra, envolve diesel, e os custos estão simplesmente consumindo nossa margem de lucro”, disse Orth, citado pela Bloomberg.
A demanda brasileira por diesel sobe na entressafra, e a sobreposição entre plantio de soja e algodão com a venda do milho de inverno eleva consumo a picos sazonais, em “quase 200.000 barris por dia acima dos padrões de entressafra”, segundo a apuração, citada pela Bloomberg.
Além disso, “Em três dos últimos quatro anos, as importações brasileiras de diesel e gasóleo atingiram o pico todo mês de setembro, de acordo com dados da Vortexa Ltd.”, conforme registrado pela Bloomberg, o que sinaliza que a pressão não é pontual, mas recorrente.
Com preços sazonais de diesel nos níveis mais altos em quatro anos, muitos agricultores têm pouco espaço para reduzir custos, porque a mecanização e o transporte das safras dependem do combustível.
Consequências para os EUA e o mercado global
O Brasil é hoje o maior importador de diesel depois da Austrália, e a exigência por volumes maiores tem levado novamente o país a depender dos Estados Unidos, segundo a Bloomberg.
Historicamente, “os produtores americanos de combustíveis, que antes forneciam mais de 80% do diesel importado pelo Brasil”, perderam participação desde 2022, quando a guerra na Ucrânia alterou fluxos de diesel, mas recentemente recuperaram vendas ao Brasil, conforme dados citados pela Bloomberg.
Mesmo assim, os EUA enfrentam estoques apertados, pois “os estoques dos EUA estão nos níveis sazonais mais baixos já registrados”, e a produção e margens estão em níveis elevados, reduzindo folga para repor suprimentos, segundo análise da Bloomberg.
Susan Bell alertou que “os EUA realmente não têm mais estoques para recompor isso”, traduzindo a preocupação sobre a capacidade americana de fornecer volumes extras sem afetar preços internos.
Como consequência, há risco de repasse de custos, com possibilidade de aumento de preços do diesel nos Estados Unidos, o que pode ocorrer em um momento sensível politicamente, às vésperas de eleições de meio de mandato.
Riscos e cenários à frente
Atualmente, alguns navios-tanque do Golfo dos EUA já estão a caminho do Brasil, e alternativas como envios da Coreia do Sul podem ser viáveis temporariamente, conforme análise de mercado citada pela Bloomberg.
No entanto, a janela para esses desvios pode fechar, e a partir de novembro a matemática logística pode favorecer novamente exportações dos EUA para a costa brasileira.
Especialistas destacam que o mercado pode atravessar o outono sem colapsar em uma crise aberta, mas a margem é curta. “Estamos meio que na faca do equilíbrio”, disse Susan Bell, citada pela Bloomberg, sobre o ponto de risco atual.
Isabella Chiodi, analista da Energy Aspects Ltd, em Houston, também advertiu que “Se uma das grandes refinarias tivesse uma parada, as importações, especialmente da Costa do Golfo dos EUA, aumentariam substancialmente”, conforme declaração traduzida e registrada pela Bloomberg.
Para os agricultores, a mensagem é pragmática. Orth, de 76 anos, resumiu a rotina no campo, dizendo que a única saída é continuar o trabalho, “você faz o que precisa ser feito”, conforme citado pela Bloomberg.
O desfecho dependerá da combinação entre desempenho das refinarias, caminhos comerciais alternativos e eventos inesperados, como paradas não planejadas em refinarias ou novos choques geopolíticos, fatores que podem transformar a atual pressão de abastecimento em uma crise mais ampla do diesel.

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