A história de Tathiara Barbosa Fonseca exemplifica o que virou rotina no Brasil, com apostas pequenas que viraram dívida e dependência.

Ela começou com R$25 a R$50, chegou a ganhar R$72,5 mil e em poucos episódios perdeu tudo, fez empréstimos e, em três anos, somou perdas de R$1.883.981,08 reais.

O quadro traçado por reportagens e levantamentos mostra um mercado alimentado por publicidade, celebridades e lacunas na regulamentação que ampliaram o alcance das apostas online, conforme reportagem da piauí.

Como o mercado virou tsunami

No fim do governo Michel Temer, a chamada aposta de quota fixa foi legalizada para permitir tributação, mas a regulamentação não andou no prazo previsto, o que deixou o setor em limbo.

Esse vácuo permitiu que plataformas, muitas com sede em paraísos fiscais, introduzissem jogos de cassino online, como roleta, caça níquel, blackjack e o jogo conhecido como Tigrinho, e crescessem sem controle.

Em 2022, o Brasil registrou 113,9 milhões de apostas online, segundo a Similarweb, ficando à frente dos Estados Unidos, que somaram 77,9 milhões de apostas online.

Com a expansão das plataformas, o dinheiro saiu do país com facilidade, enquanto dentro do Brasil surgiam campanhas massivas de marketing e contratos milionários com influenciadores.

Publicidade, influenciadores e o chamado “cachê da desgraça alheia”

A força da publicidade foi decisiva. Alguns influenciadores receberam fortunas por indicar plataformas, em contratos que pagavam porcentagens sobre as perdas dos usuários.

Um caso exemplar, conforme a reportagem, mostra que uma influenciadora recebia 30% do que os usuários perdiam e recebeu um adiantamento de 50 milhões de reais em 2022.

Esses acordos transformaram anunciantes em motores do vício, com apelos constantes nas redes sociais, na televisão e até em uniformes de times de futebol.

Impacto econômico e social

Os números mostram o tamanho do problema: só nos oito primeiros meses de 2024, os brasileiros gastaram, em média, 20,8 bilhões de reais em apostas online, contabilizados apenas via Pix, segundo levantamento do Banco Central.

Do montante do Bolsa Família, de 14,1 bilhões de reais distribuídos todo mês, 3 bilhões foram repassados para as bets, revelou o mesmo levantamento.

O fenômeno já afeta o varejo e serviços básicos, com empresários como Belmiro Gomes, da rede Assaí, atribuindo parte da queda no consumo entre clientes de baixa renda ao gasto com apostas.

Organizações do setor de bares e restaurantes e do comércio relatam impacto direto, e entidades apontam que 1,3 milhão de pessoas entraram em inadimplência só no primeiro semestre de 2024 por causa das apostas.

Saúde pública, ludopatia e capacidade de resposta

O aumento de casos de vício levou clínicas e centros de tratamento a um colapso. O Programa Ambulatorial do Jogo do Instituto de Psiquiatria da USP viu a procura triplicar entre 2023 e 2024.

Especialistas alertam que a mecânica das redes sociais, o uso de algoritmos e a rolagem infinita aumentam a sensação de recompensa imediata e impulsionam a compulsão.

As principais vítimas são das classes C e D, e há relatos de impactos específicos sobre mulheres, que, segundo psicólogos, carregam fardos emocionais e financeiros agravados pelo vício.

Poder, política e tentativas de controle

Em 30 de dezembro de 2023, com apoio do governo e do Centrão, foi publicada a lei que passou a regular o setor, conhecida como a Lei das Bets, e em janeiro foi criada a Secretaria de Prêmios e Apostas no Ministério da Fazenda.

O governo estimou arrecadar 3,4 bilhões de reais em tributos com o segmento em 2024, mas especialistas e representantes da saúde pública criticaram a condução, porque medidas de prevenção e tratamento ficaram em segundo plano.

Entre março e setembro de 2024, houve 209 reuniões sobre a regulamentação, e representantes do Ministério da Saúde participaram de apenas duas, segundo levantamento da agência Fiquem Sabendo.

Na política, a polêmica ganhou espaço em campanhas, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmando, em agosto, que “Se ninguém me mostrar uma razão social dessas bets continuarem, nós temos que acabar com elas”.

A CPI das Bets, instalada em novembro de 2024 para investigar o impacto das apostas online, durou sete meses e revelou ligações entre empresários do setor, políticos e autoridades, levantando suspeitas sobre transferências e relações pessoais.

Relatórios de inteligência financeira citados pela CPI mostram, por exemplo, transferências de 625 mil reais de um empresário do setor para um ex-assessor de senador, e movimentos de recursos que despertaram questionamentos.

O que muda e o caminho à frente

O governo anuncia medidas para conter o mercado, com propostas para restringir publicidade e endurecer regras, mas especialistas lembram que os danos já causados a famílias e economias locais vão demorar a ser reparados.

Controlar as apostas online exige ações integradas, que incluam regulação firme, fiscalização dos fluxos financeiros, políticas públicas de prevenção e ampliação de tratamento para ludopatia.

Sem uma resposta ampla, o risco é que o setor continue a gerar lucros, exportar recursos e deixar no Brasil um rastro profundo de dívidas, endividamento e sofrimento, conforme mostram as apurações sobre o fenômeno.


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