Levantamento da caderneta da Câmara revela onde viviam deputados federais no Rio capital 1959, com 150 em Copacabana e 336 endereços anotados antes da mudança em abril de 1960

Trata-se de um recorte da vida política e urbana do Rio, quando a cidade ainda era o endereço do poder, e os parlamentares se instalavam com suas famílias, em imóveis próprios ou alugados.

A caderneta conservada, com contatos e endereços, mostra preferências de moradia, a força de bairros como Copacabana e a rotina dos deputados antes da transferência para Brasília.

Todas as informações a seguir são baseadas em levantamento e relatos divulgados pelo GLOBO, conforme informação divulgada pelo GLOBO.

Copacabana, o bairro preferido dos deputados federais

O dado mais curioso do levantamento é a concentração em um único bairro, Copacabana, com 150 deputados morando ali, segundo a caderneta da Câmara. O bairro se consolidou na década de 1950 como símbolo de modernidade e lazer, com nova oferta de apartamentos e vida noturna intensa.

Na visão da historiadora Marly Motta, citada pela reportagem, “Todo mundo queria morar em Copacabana. Era o bairro da moda, da bossa nova, do cinema novo. As pessoas de influência da época viviam lá“. O relato ajuda a explicar por que tantos parlamentares escolheram se instalar junto ao mar.

Além do apelo social, havia custo e praticidade, já que muitos deputados vinham ao Centro para trabalhar na Câmara, então instalada no Palácio Tiradentes.

Dados da caderneta e endereços de políticos famosos

A caderneta encontrada em um sebo registra contatos e endereços de 336 deputados federais, incluindo os 326 eleitos e os suplentes em exercício em 1959, último ano do Rio como capital, conforme a publicação consultada.

Entre os nomes e endereços anotados, aparecem episódios e residências que viraram história. José Sarney, então com 29 anos e em seu primeiro mandato como deputado pela UDN, constava em um apartamento de 230 metros quadrados na Rua Bolívar, no quarto andar de um prédio da Zona Sul.

Tenório Cavalcanti, também filiado à UDN, constava em um prédio na Rua Sá Ferreira, no nono andar, embora sua fortaleza política fosse uma casa em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde retornava nos fins de semana.

O deputado Mário Tamborindeguy morava no prestigiado Edifício Chopin, na Avenida Atlântica, no quinto andar, imóvel que segue na família, conforme relato à reportagem.

Outros bairros e rotinas, entre coberturas e hotéis

Fora de Copacabana, a concentração maior estava no Centro, com 46 parlamentares, seguido pelo Flamengo, com 31, Botafogo e Ipanema, com 20 cada, Laranjeiras com 15, e Leblon com 14. Havia ainda alguns deputados residindo em Grajaú, Maracanã, Méier e Niterói.

Alguns escolheram hotéis do Centro, mais baratos e próximos ao Legislativo. Ao menos oito deputados constavam hospedados no antigo Hotel Serrador, na Cinelândia, enquanto outros frequentavam o Copacabana Palace e seu anexo.

Também havia compartilhamento de moradia entre colegas, como a cobertura da Avenida Rui Barbosa, onde moravam Jânio Quadros e Emílio Carlos, ou o nono andar da Rua Marquês de Abrantes, ocupado por Antônio Carlos Magalhães e Alaim Mello.

Segurança, vida cotidiana e a mudança para Brasília

A rotina nos prédios podia mudar por causa da presença de políticos com perfil conflituoso. No prédio onde viveu Carlos Lacerda, por exemplo, houve aumento de segurança e restrições de acesso quando ele estava na cobertura.

O baiano Waldir Pires, em entrevista citada pela reportagem, lembrou que não havia auxílio-moradia, e que “o aluguel de um apartamento na Rua Souza Lima, em Copacabana, consumia metade de seu salário”, ilustrando o custo de residir no Rio para parlamentares das regiões mais distantes.

A transferência dos poderes para Brasília se concretizou em abril de 1960, e a publicação da Câmara registrou o quadro de moradia dos deputados pouco antes da mudança, oferecendo um retrato do Rio como capital e palco da vida pública.

Mesmo após a criação de Brasília, muitos parlamentares mantiveram vínculos com o Rio, e a mudança definitiva de residências só se completou nos anos seguintes, conforme análises históricas citadas pela reportagem.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *