Financiamento de usinas eólicas e solares sofre retração por curtailment e juros, enquanto PCHs e termelétricas contratadas já buscam recursos, apontam fontes do setor

O acesso ao capital para projetos de energia mudou de perfil, com menor apetite para as fontes solar e eólica, e maior presença de investidores em termelétricas e pequenas centrais hidrelétricas.

Juros elevados e incertezas sobre cortes de geração, o chamado curtailment, tornaram mais difícil projetar fluxos de caixa e atrair financiamentos para novas usinas eólicas e solares.

Ao mesmo tempo, existe demanda por recursos e projetos considerados estruturados seguem captando, conforme informação divulgada pela reportagem enviada.

Por que o financiamento de usinas eólicas e solares encolheu

Investidores e bancos passaram a revisar as premissas usadas para avaliar projetos de energia renovável, em especial os de geração solar e eólica.

O problema central é a combinação entre juros altos e o risco adicional do curtailment, isso reduz a previsibilidade do recebimento e aumenta o risco percebido pelos financiadores.

Segundo Leandro de Angeles, head de project finance do Bradesco BBI, “Em renováveis, investidores estão sem apetite para novos projetos, Juros impactam na capacidade de pagamento, diminuem o retorno dos ativos e tudo é agravado pelo curtailment“.

Na prática, diz-se que projetos renováveis exigem hoje mais capital próprio, menor alavancagem e covenants mais restritivos, para suportar cenários de estresse.

Termelétricas e PCHs seguem atraentes para financiadores

Enquanto os projetos eólicos e solares patinam, quem venceu leilões de termelétricas já está em busca de recursos, mesmo que mais caros, e as PCHs têm um pipeline considerado positivo pelos financiadores.

Marcelo Girão, chefe de project finance do Itaú BBA, afirma que “No mundo das termelétricas, é um ano fantástico, com bom pipeline e retorno dos ativos. O desafio não é financiamento, que tem, mas a compra de equipamentos“.

As PCHs continuam sendo consideradas bancáveis, e o apetite do mercado por esses ativos mostra que o risco percebido é menor quando o fluxo de caixa é mais previsível.

Demanda por capital e números do setor

O volume necessário para ampliar o parque de geração é grande, apontando para a necessidade de converter o pipeline em projetos financiáveis.

O Plano Decenal de Expansão de Energia prevê investimentos da ordem de R$ 3,5 trilhões até 2035, segundo as informações recebidas.

No primeiro semestre, as ofertas primárias de debêntures incentivadas somaram R$ 65,1 bilhões, dos quais 52,9% tiveram o setor de energia como destino.

Um levantamento da Empresa de Pesquisa Energética mostra que debêntures e recursos do BNDES responderam por 81,68% do financiamento para a transição energética entre 2015 e 2024.

Em 2024, dos R$ 69 bilhões investidos, R$ 49 bilhões vieram de debêntures incentivadas, R$ 13 bilhões do BNDES e cerca de R$ 6 bilhões do BNB.

Instrumentos e estratégias financeiras em um cenário de juros altos

Com crédito mais caro e menor liquidez, empresas têm recorrido a empréstimos-ponte e emissões de prazo mais curto, para atravessar a fase inicial até um eventual refinanciamento.

A atuação do BNDES e fundos como o Fundo Clima segue sendo peça importante na engrenagem, com prioridades em modernização de redes, armazenamento, biometano, SAF e hidrogênio de baixo carbono.

Os desembolsos do Fundo Clima chegaram a R$ 2,75 bilhões no ano passado e a R$ 1,69 bilhão apenas no primeiro semestre deste ano.

O private equity também aparece como alternativa em um ambiente de juros elevados, com casos como a ComBio, investida pela Lightrock.

Segundo a reportagem recebida, a ComBio recebeu R$ 180 milhões do Fundo Clima e já havia acessado cerca de R$ 450 milhões da IFC.

No segmento de micro e minigeração distribuída, os problemas são outros, como restrições de conexão e mudanças regulatórias que desaceleraram o mercado.

Flávio Suchek, CEO da Sol Agora, afirma que cerca de 45% dos projetos de MMGD dependem de crédito, o equivalente a aproximadamente R$ 9 bilhões por ano, e que a empresa já captou R$ 2,6 bilhões por meio de quatro fundos, sendo R$ 600 milhões no último lançamento.

O que falta para destravar o financiamento de usinas eólicas e solares

Especialistas destacam que não é ausência de capital, mas a dificuldade de transformar projetos em ativos financiáveis, com relação adequada entre risco e retorno.

Cristina Tamaso, gestora da Valora Investimentos, resume a necessidade, dizendo, “Há capital e há uma necessidade de investimentos. O desafio é fazer com que esse pipeline se transforme em projetos efetivamente financiáveis, com uma relação adequada entre risco e retorno“.

Para avançar, apontam-se caminhos como maior previsibilidade regulatória, engenharia financeira adaptada ao novo cenário e diversificação de instrumentos, incluindo debêntures, recursos públicos e participações de private equity.

O mercado segue atento, com oportunidades para projetos bem estruturados, e desafio maior naqueles expostos ao curtailment e à volatilidade dos fluxos de caixa.


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