A campanha do segundo turno começa com outros focos além da economia, mas as contas públicas estarão presentes, com pressão de investidores por medidas de contenção de gastos.

Com a dívida pública já em 82,9% do PIB e sem perspectiva clara de estabilização, surgem cobranças por um ajuste fiscal principalmente do lado das despesas, que, segundo a campanha, já superam os 19% do PIB.

As propostas apresentadas até agora têm alcance e custos diferentes, e podem exigir medidas impopulares que as campanhas evitam detalhar, o que complica a credibilidade junto ao mercado.

conforme informação divulgada pelo g1

Propostas e sinais da campanha de Flávio Bolsonaro

A campanha do senador Flávio Bolsonaro não trouxe um plano detalhado, mas deu pistas, entre elas a intenção de substituir o atual arcabouço fiscal por uma âncora de dívida.

O objetivo é que, a partir de determinados níveis de endividamento, gatilhos sejam acionados, como a aplicação de um teto de gastos corrigido somente pela inflação, voltando à lógica anterior ao arcabouço que permite que as despesas cresçam até 2,5% acima da inflação.

Além disso, há a proposta de um ajuste majoritário pelo lado da despesa no primeiro ano, da ordem de 1,5% do PIB, o que, se implementado, dificilmente ocorrerá sem medidas impopulares, segundo avaliação de analistas.

Os bolsonaristas também sinalizam retomada de uma estratégia de gestão de ativos, com venda de patrimônio, como imóveis e direitos a receber, inclusive de petróleo, para reduzir a dívida ao longo do tempo.

Postura e sinais da campanha de Lula

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou LDO e PLOA com metas que implicam um ajuste entre 1,5% e 2% do PIB em quatro anos, mostrando intenção de controlar o rumo das contas.

Em conversas com o mercado, a equipe econômica de Lula indicou reforço no controle de gastos obrigatórios e até a possibilidade de reduzir o teto de gastos, mas a mensagem foi inconsistente.

O próprio presidente chegou a afirmar que é “babaquice” falar de superávit primário, fala que aliados interpretaram como reação à pressão e ao cansaço, o que complicou a construção de credibilidade fiscal.

Nos últimos dias, o governo intensificou despesas, com medidas como reajuste do Bolsa Família, compra de dívidas de famílias e outras ações que podem ser ampliadas no segundo turno.

Impacto político e cenário eleitoral

As urnas indicam que o voto desta eleição tem forte componente de revolta com o estado das instituições, mais do que um debate técnico sobre finanças públicas, o que tende a deslocar parte do foco do eleitorado.

Ao mesmo tempo, a eleição trouxe uma bancada bolsonarista reforçada no Congresso, elevando a tensão com o Supremo Tribunal Federal, e abrindo espaço para campanhas que privilegiam temas emocionais, como debates religiosos.

Nesse ambiente, o ajuste fiscal pode ser tratado como tema importante para mercados e investidores, mas não necessariamente como o centro da disputa entre os candidatos no segundo turno.

Riscos para a economia e para a credibilidade

Seja qual for a estratégia escolhida, o desafio é conciliar cortes ou medidas de receita com a necessidade de manter apoio político, e ao mesmo tempo restaurar confiança do mercado diante da dívida em 82,9% do PIB.

Medidas anunciadas ou implementadas de forma inconsistente podem reduzir a credibilidade fiscal e aumentar a volatilidade, enquanto ajustes claros e sustentáveis são exigidos por investidores que cobram contenção, sobretudo do lado das despesas, que já superam os 19% do PIB.

O segundo turno, portanto, pode combinar disputas sobre imagem e narrativa com debates técnicos sobre como realizar um ajuste fiscal que seja viável politicamente e aceitável para os mercados.


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