Projeto no entorno do Museu do Ipiranga converte o convento centenário em moradias de luxo, mantendo fachada, escadarias e corredor original, com piscina no pátio e clubhouse na capela
O antigo conjunto religioso ao lado do Museu do Ipiranga será reuso adaptativo, integrando preservação e unidades residenciais de alto padrão.
O empreendimento batizado de Alma Mater reúne intervenções no edifício histórico e duas alas novas de arquitetura contemporânea.
As informações sobre a compra, projeto e cronograma foram publicadas pela EXAME, confira detalhes a seguir, conforme informação divulgada pela EXAME.
História e trajetória do terreno
O conjunto arquitetônico foi concebido por volta de 1920 como parte da atuação do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, as Irmãs Salesianas, criado para acolher e educar jovens em situação de vulnerabilidade.
O projeto foi assinado por Domingos Del Piano, e doado pelo conde José Vicente de Azevedo, proprietário das terras e figura ligada ao desenvolvimento urbano do bairro.
Inaugurado como Casa Maria Auxiliadora, o prédio passou a ser chamado Noviciado Nossa Senhora das Graças, e ao longo do século foi usado como centro de espiritualidade, pensionato e faculdade.
Na década de 1970 a Faculdade São Marcos passou a operar no local, e em 1979 comprou cerca de quase 5.000 metros quadrados do terreno, transformando parte do antigo convento no chamado Prédio João XXIII.
Com o colapso da instituição, em 2012 o Ministério da Educação descredenciou a Universidade São Marcos, e o local entrou em abandono, com disputas jurídicas e deterioração das instalações.
Negociação, seleção e a compra
Em 2015 a incorporadora Alfa Realty adquiriu a área remanescente com proposta de preservação integral e reuso adaptativo.
André Davidovici, sócio diretor da Alfa Realty, relatou o processo de compra e a relação com as religiosas, usando expressões que mostram a negociação cuidadosa, “Me surpreendi e questionei o que faríamos com o convento. Logo descobri que, além de tudo, ele era tombado”.
Sobre a interlocução com as irmãs, ele comentou, “Para conseguir comprar o terreno fizemos uma bela entrevista com as irmãs. Elas que homologaram a gente, né?”, e acrescentou que se criou uma relação de amizade com as religiosas.
Segundo a incorporadora, houve também um cuidado jurídico porque o imóvel fazia parte de um conjunto de doações históricas ligadas ao conde José Vicente de Azevedo, e apenas uma parte estava disponível para venda.
Na negociação, as restrições das doadoras e o histórico de preservação da Alfa Realty foram determinantes, “As irmãs nos homologaram depois de uma entrevista. Elas queriam ter certeza de que o prédio seria restaurado e não demolido”.
O projeto, estilos e números
O retrofit foi assinado pela arquiteta Sol Camacho, e prevê converter antigas salas e corredores em unidades residenciais independentes, preservando elementos como fachada, escadarias e corredores.
O conjunto terá 51 unidades, sendo 19 localizadas no edifício histórico, chamado de “O Legado”, com 8 unidades no pavimento térreo e 11 no pavimento superior.
As demais 32 unidades estarão distribuídas em duas alas novas, de arquitetura contemporânea e escalonada, construídas ao lado do conjunto original.
As tipologias variam de studios a apartamentos maiores, no prédio histórico as áreas giram em torno de 90 metros quadrados, com algumas unidades maiores chegando a 300 metros quadrados ou mais.
Nos prédios novos haverá studios de 34 metros quadrados e unidades de até 370 metros quadrados, com preço médio do metro quadrado em R$20 mil, e variação positiva de 10% para as unidades dentro do convento histórico.
O empreendimento tem Valor Geral de Vendas estimado em R$130 milhões, e a lógica do projeto busca “descascar” intervenções acumuladas para recuperar a leitura arquitetônica de 1920.
Cronograma, venda e uso previsto
As obras estão previstas para começar no segundo semestre de 2026, e a entrega do empreendimento está prevista para outubro de 2028.
Até o fechamento da matéria, metade das unidades do conjunto já havia sido vendida, restando apenas três unidades no prédio histórico.
O projeto incorpora uma piscina no pátio central e um clubhouse na antiga capela das irmãs, combinando equipamentos contemporâneos e espaços restaurados.
Promotores e arquitetos dizem que a intenção é preservar camadas do passado, ao mesmo tempo em que oferecem soluções residenciais de alto padrão no entorno de um dos marcos históricos de São Paulo.
O destino do terreno ilustra a tensão entre preservação, memória e mercado imobiliário, ao transformar um equipamento religioso centenário em empreendimento privado, mantendo elementos principais da arquitetura original.
As informações e citações mencionadas neste texto foram obtidas junto à reportagem publicada pela EXAME.

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