Aos 77 anos, Ricardo Vicintin tem um ano e meio para preparar a sucessão no Grupo Rima, empresa que domina a produção de magnésio e investe em processos mais sustentáveis

Ricardo Vicintin, 77 anos, diz que resta “um ano e meio de areia na ampulheta” até a aposentadoria, e ele espera que o filho Bruno assuma os negócios da família.

O Grupo Rima é hoje referência na América do Sul na produção e comercialização de ligas à base de silício, e é o único fabricante de magnésio primário no Hemisfério Sul.

Além da produção, a empresa mantém ações ambientais e projetos sociais que marcaram a gestão de Ricardo, e a transição familiar ainda não foi concluída.

conforme informação divulgada pelo g1

Da demanda da Volkswagen ao maior forno a carvão vegetal

Segundo depoimentos do empresário, a produção de magnésio começou por uma demanda da indústria automotiva, “Começamos a produzir magnésio porque a Volkswagen precisava de 12 mil toneladas do metal para fabricar Fusca e Kombi.”

O magnésio é o metal mais leve, embora exija muita energia, “Gasta-se o dobro de energia para produzir magnésio em relação ao alumínio”, afirmou Ricardo.

A Rima tem seis unidades fabris em quatro cidades mineiras e uma unidade no estado do Mississippi, nos Estados Unidos, e construiu na unidade de Capitão Enéas, em Minas Gerais, o maior forno movido a carvão vegetal do mundo.

A empresa, de capital fechado, não divulga faturamento, mas fechou em 2024 um contrato de R$ 1 bilhão com a Casa dos Ventos e planeja nova fábrica em Minas Gerais.

Escala, clientes e insumos estratégicos

O Grupo Rima emprega hoje cerca de 5.000 funcionários e atende cerca de 500 clientes ao redor do mundo, segundo as informações recebidas.

Sob o comando de Ricardo, a Rima se tornou o maior consumidor de terras raras no Brasil, com “cerca de 40 toneladas por mês, sendo 60% de cério e lantânio e os demais 40% de outros elementos.”

O material é importado já misturado da China, segundo as declarações, o que mostra a dependência de insumos estratégicos e as cadeias globais que influenciam a indústria.

Sustentabilidade, reconhecimento internacional e competição com a China

A Rima recebeu da International Magnesium Association o reconhecimento como “único produtor verde de magnésio no planeta”, destacando o caminho sustentável adotado, diferente do modelo predominante na China.

O empresário observou que “o mundo hoje depende muito mais da China para o magnésio do que para terras raras. O mercado global é de 1,1 milhão de toneladas por ano. Desse total, a China produz cerca de 500 mil toneladas e, no último congresso do setor, no Canadá, uma funcionária do governo chinês apresentou trabalho mostrando que eles pretendem aumentar a produção para 3,5 milhões de toneladas”, completa.

Esse cenário posiciona a Rima como alternativa para empresas e países que buscam fornecedores fora da China, mesmo sem igualar sua escala de produção.

Sucessão, futebol e visão sobre tarifas

Ricardo não condena a carreira esportiva do filho, que é dono do Santa Clara, clube da primeira divisão de Portugal, e já foi diretor de futebol do Cruzeiro, mas afirma, “Para ser sincero, ele já deveria ter assumido os negócios da família.”

O presidente reconhece a paixão do filho pelo esporte, e confessa orgulho, mas lembra que “tudo tem sua hora”, e que a transição é necessária para fechar seu ciclo na empresa.

Sobre as incertezas do comércio internacional, ele disse, “Confesso que no início de toda essa confusão de taxas eu fiquei bem preocupado, mas hoje estou muito feliz com o nosso futuro”, destacando que magnésio, silício metálico e cal de silício produzidos pela Rima foram excluídos da última rodada de 25% de imposto de importação nos Estados Unidos, por serem insumos estratégicos.

Legado ambiental e projetos sociais

A Fundação Vicintin mantém a maior RPPN privada do país, com 16 mil hectares e cerca de “60 mil quilômetros”, conforme as informações divulgadas.

Parte das aves apreendidas em ações contra o contrabando de animais silvestres são recebidas e adaptadas em viveiros mantidos pela Rima, para posterior devolução ao habitat natural.

Ricardo resume a postura da empresa, “A gente pouco aparece mesmo”, uma declaração que traduz a atuação discreta da família, apesar do alcance industrial e ambiental do grupo.

Agora, resta aguardar se Bruno deixará temporariamente o futebol português para assumir a operação que tornou o Grupo Rima referência em magnésio e produção sustentável, consolidando o legado industrial e ambiental deixado pelo fundador.


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