Dois meses após a explosão no Jaguaré, moradores dizem conviver com obras inacabadas, novos vazamentos, atendimento irregular e impasses nas negociações de indenização
A explosão que atingiu o Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, segue deixando marcas na rotina de parte dos moradores, mesmo duas meses depois do acidente.
Famílias relatam reparos que voltam a apresentar problemas, equipes que retornam várias vezes e um sentimento de desgaste com o tempo perdido para acompanhar obras não concluídas.
No relato coletivo, há ainda queixas sobre o tratamento recebido por parte de trabalhadores responsáveis pelas intervenções e dúvidas sobre a condução das negociações de indenização, conforme informação divulgada pelo g1.
Obras incompletas e problemas recorrentes nas residências
Moradores relatam que intervenções técnicas retornam às casas diversas vezes, mas defeitos reaparecem, especialmente após chuva. A moradora Fernanda Cardoso, 44, conta que precisou interromper a rotina de trabalho para acompanhar reparos que nunca eram concluídos, ela diz, “Todo dia eles falavam que iam finalizar. Eu deixava de trabalhar e, quando chovia, aparecia um vazamento novo”.
Cardoso relata que o telhado passou por diferentes intervenções e que chegou a espalhar baldes pelos cômodos para conter a água durante as chuvas, ela afirma, “Toda vez que eles subiam no telhado, aparecia um defeito diferente”. A moradora reclama também da condução dos reparos e da declaração de que a pintura seria uma “cortesia”, ela questionou, “Não pedi cortesia. Só queria que resolvessem o problema, que não fui eu quem causou”.
Dados oficiais, assistência e situação habitacional
A Sabesp afirmou sua atuação em três etapas para acolhimento e reparação, e disse apoiar os moradores afetados. Segundo a companhia, “no perímetro definido pela Defesa Civil, 48 imóveis apresentaram avarias, sendo que 44 tiveram os reparos concluídos e quatro seguem em execução. Fora dessa área, diz ter vistoriado outros 99 imóveis”.
A empresa afirmou ter oferecido medidas emergenciais, como “hospedagem, moradia temporária, mudanças, guarda-móveis e auxílio de R$ 5.000 aos moradores próximos à explosão”. Sobre as famílias que perderam suas casas, a Sabesp informou ter apresentado soluções habitacionais individualizadas para 68 famílias, e disse que, “22 receberam escrituras de apartamentos, 41 permanecem temporariamente em imóveis alugados e cinco ainda analisam propostas”.
Negociações, descontos e resistência das famílias
Além dos problemas nas obras, moradores e suas defesas contestam a forma como as negociações de indenização têm sido conduzidas. A defesa de famílias afirmou que Sabesp, Comgás e Defensoria Pública têm conduzido tratativas diretamente com moradores, sem a participação dos advogados escolhidos pelos atingidos.
Um ponto questionado é “uma cláusula que prevê o desconto do auxílio emergencial de R$ 15 mil concedido a comerciantes em indenizações futuras por danos materiais”. A defesa alega que, quando o valor foi disponibilizado, a informação passada era de que o montante não seria abatido. Familias relatam ainda que propostas de ressarcimento foram oferecidas antes de buscarem orientação jurídica, e que as negociações complicaram após a entrada de advogados, conforme relato de Cardoso.
Responsabilidades, investigações e próximos passos
O acidente, ocorrido em 11 de maio durante uma obra envolvendo redes subterrâneas de saneamento e gás canalizado, matou o segurança Alex Sandro Fernandes Nunes, 49, e o pintor autônomo Francisco Bondemba da Silva, 57, conhecido como Bodenga. Dezenas de imóveis foram atingidos e famílias precisaram deixar suas casas.
A Defensoria Pública afirmou que atua desde o primeiro momento no acolhimento das vítimas e participa das negociações com a Sabesp para construção de um programa de reparação, o órgão diz que “nenhum acordo é formalizado sem a concordância do interessado” e que presta assistência jurídica individual a quem não possui advogado. A Comgás informou que permanece em diálogo com a comunidade e em estreita colaboração com o governo e Sabesp. O Ministério Público de São Paulo informou que atuou no atendimento inicial às vítimas da explosão e que, atualmente, conduz dois inquéritos civis para apurar a responsabilidade das concessionárias pelos danos coletivos.
Moradores pedem celeridade e respeito, e pedem sobretudo a volta da rotina, como resumiu a autônoma Eva Aparecida Rosa dos Santos, 52, que disse que adiou exames e compromissos enquanto aguardava o fim das obras. Ela afirmou, “Quero é minha casa de volta. Preciso da minha rotina de volta”.

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