A saída do acordo conhecido como Moratória da Soja pode acelerar o desmatamento na Amazônia brasileira, criando uma nova pressão sobre florestas públicas e privadas.
A projeção indica perdas de vegetação equivalentes a territórios europeus e impacto direto nas metas climáticas do Brasil.
No fechamento da introdução, é importante destacar a origem dos dados, conforme análise publicada na revista Science.
Principais projeções e impactos
A pesquisa calcula que o fim da Moratória da Soja provocará uma destruição adicional de 1,4 milhão de hectares de vegetação até 2035, em comparação a um cenário em que o pacto permanece, com margem de erro entre 740 mil e 2 milhões de hectares.
O estudo estima também a emissão de 745 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, entre 390 milhões e 1 bilhão de toneladas, o que dificulta o cumprimento das metas brasileiras de redução de emissões.
Os autores projetam um aumento de 17% no desmatamento da Amazônia na próxima década, entre 2025 e 2035, em relação à década anterior, entre 2014 e 2024.
Quem assinou o estudo e quem financiou
O trabalho foi elaborado por pesquisadores das universidades de Wisconsin, Illinois e DePaul, nos Estados Unidos, em parceria com os segmentos brasileiros do Greenpeace e do WWF, e recebeu financiamento do WWF Suíça.
O artigo foi revisado por pares e traz análises que combinam mapas de risco de expansão agrícola e efeitos econômicos do fim do pacto.
Áreas vulneráveis e efeitos legais
Segundo a análise, 9,1 milhões de hectares de vegetação em terras privadas poderão ser derrubados legalmente para cultivo, área equivalente ao território de Portugal.
Além disso, 28,7 milhões de hectares em florestas públicas não destinadas estarão vulneráveis, uma área próxima ao tamanho da Itália.
Os autores ressaltam que a maior parte do novo desmate não virá de fazendas que já produzem soja, mas de propriedades que até então não tinham soja, abrindo novas frentes de expansão.
Contexto da Moratória da Soja e reações do setor
A Moratória da Soja, criada em 2006, impedia a comercialização de grãos cultivados em áreas desmatadas na Amazônia após 2008, reunindo órgãos governamentais, empresas e organizações da sociedade civil.
Em janeiro deste ano, a Abiove, representante das maiores companhias de comércio de soja, anunciou a saída da coalizão. A entidade disse que não irá se manifestar sobre a nova análise.
Os pesquisadores afirmam que, sem o pacto, os incentivos econômicos para conversão direta de florestas voltam, e a soja pode estimular desmatamento especulativo, aumentando a pressão sobre o bioma.
Declarações dos pesquisadores e riscos futuros
Lisa Rausch, pesquisadora de meio ambiente na Universidade de Wisconsin, afirma, “O efeito do fim da Moratória não vai ser majoritariamente nas propriedades que já produzem soja, vai ser nas outras propriedades, porque já abriu a perspectiva para expansão em áreas que nunca tiveram soja anteriormente”.
Tiago Reis, do WWF Brasil, diz, “A Moratória da Soja serviu como um selo, uma garantia de que a soja não estava causando desmatamento. Agora, a gente perde esse selo”.
O estudo ainda destaca que fazendas de soja têm somente 60 mil hectares de áreas florestais que poderiam ser derrubadas legalmente, enquanto existem 1,7 milhão de hectares de terras já abertas e aptas ao cultivo, permitindo expansão sem necessidade de novo corte.
O entorno da rodovia BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, é apontado como possível nova fronteira agrícola, cuja exploração seria facilitada com o asfaltamento da estrada, o que aumenta a preocupação com desmatamento futuro.
Na primeira década de vigência do acordo, o pacto setorial teria reduzido em 35% o desmatamento nas áreas de risco associadas à soja, evitando a derrubada de aproximadamente 1,8 milhão de hectares, segundo o estudo.
Com o enfraquecimento do acordo, o aumento do desmatamento pode comprometer o Plano Clima do Brasil, que depende de reduções expressivas no desmate para cumprir as metas nacionais de emissões.
Especialistas e ambientalistas alertam que a perda do selo da Moratória da Soja tende a revalorizar, economicamente, a conversão de floresta em área agrícola, revertendo ganhos ambientais obtidos nas últimas décadas.

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