A poupança começou a perder espaço em 2026, mas a saída não é homogênea, ela ocorre sobretudo entre os poupadores de classe média.

Enquanto contas com saldos mais altos seguem crescendo, faixas entre R$10 mil e R$50 mil registraram perdas constantes, indicando uma mudança na composição dos depósitos.

No agregado, o retrato parece estável, já que o estoque se sustenta em boa parte pelo crédito mensal de juros, então, mesmo enquanto os saques superaram os depósitos, o total seguiu em torno de R$ 957 bilhões, e o número de contas até cresceu no período, conforme informação divulgada pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Saques recaem sobre a classe média

Os dados do censo do FGC mostram que a redução nos recursos da poupança entre janeiro e abril de 2026 concentrou-se nas contas de classe média, especialmente na faixa de R$20 mil a R$50 mil, que é a mais representativa do estoque e puxa o recuo.

Contas entre R$10 mil e R$50 mil perderam clientes e valor todos os meses da série, enquanto muitas contas acima de R$400 mil cresceram mês a mês, formando o que analistas chamam de uma poupança de dois andares, com retração entre poupadores médios e estabilidade ou expansão entre os saldos mais altos.

Saldo médio em queda e mais contas, menos dinheiro por cliente

O segundo movimento relevante é a queda do saldo médio por conta, que atingiu o menor nível da série em março, com recuperação parcial em abril. A caderneta terminou o período mais pulverizada, com mais contas e menos dinheiro por cliente.

Março concentrou a fraqueza, registrando o menor volume financeiro do intervalo, apesar de ter o maior número de contas, o que indica que os saques vieram, em grande parte, de contas com saldo acima da média.

Por que os mais ricos mantêm saldo na poupança

Especialistas consultados destacam que a permanência de patrimônios elevados na poupança está ligada ao comportamento, e não necessariamente à preferência por rendimento. O planejador financeiro Nathan Galdi observa, “Um saldo elevado na poupança não significa necessariamente que todo o patrimônio esteja alocado nela”.

Galdi explica que investidores de maior patrimônio costumam usar a poupança como conta de passagem ou gestão de caixa, enquanto concentram os recursos em outros ativos, o que ajuda a explicar por que as contas grandes seguem intactas ou em expansão.

Destino dos saques e pressão do endividamento

Embora parte dos saques possa refletir a busca por aplicações mais rentáveis, o planejador financeiro Matheus Oka alerta para outro fator importante, ele diz, “Diante do elevado endividamento das famílias, também é provável que muitos estejam utilizando esses recursos para quitar dívidas ou complementar o orçamento”.

O mercado já vinha traçando esse diagnóstico, e mesmo após captação positiva em maio, o movimento foi lido como pontual, ligado a fatores sazonais como antecipação do 13º e o programa Desenrola 2.0, enquanto junho voltou a registrar resgates.

Com juros altos, a expectativa é de que a saída estrutural da poupança se intensifique, diante de alternativas com liquidez e segurança parecidas, como Tesouro Selic, CDBs de liquidez diária de instituições sólidas, fundos DI de baixa taxa, e o Tesouro Reserva, lançado em 2026, que tende a concorrer diretamente com a caderneta.

Do ponto de vista técnico, a poupança perdeu competitividade nos últimos anos, e pode continuar a perder espaço, ainda que mantenha papel específico para quem privilegia simplicidade absoluta, precisa do dinheiro em poucos dias, ou não tem acesso a outras aplicações.


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