Um prédio de pouco mais de 400 m2, em uma rua tranquila do centro de Curitiba, abriga um acervo que serve de base para estudos de cânceres pediátricos raros.

O espaço concentra cerca de 30 mil amostras de tumores, processadas e conservadas para uso em pesquisas nacionais e internacionais.

Além do armazenamento, parte das amostras é mantida viva, implantada em camundongos para estudos de agressividade e terapias, conforme informação divulgada pelo Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe.

O que é e como funciona o biobanco

O biobanco de tumores pediátricos do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, IPP, funciona desde 2015 e reúne, segundo a administração, uma das maiores coleções de tumores pediátricos destinadas à pesquisa do mundo.

Ali, uma equipe de 15 pesquisadores, entre pós-doutores, doutores, mestres e técnicos de nível superior, recebe, cataloga e processa tecidos e líquidos tumorais provenientes de pacientes atendidos no Hospital Pequeno Príncipe.

As amostras chegam do hospital ao biobanco em coolers, sem necessidade de refrigeração no curto trajeto, e são conservadas em freezers a -80°C, -30°C ou em nitrogênio líquido a -150°C.

Tumores mantidos vivos e o papel dos camundongos

Uma parte do acervo é mantida viva no biotério, onde os pesquisadores implantam pedaços de tumor humano em camundongos geneticamente modificados, para estudar o comportamento da doença.

Segundo o diretor do biobanco, Bonald Cavalcante de Figueiredo, 69, “Os camundongos funcionam exatamente como a criança. Se o tumor cresce na criança malignamente, ele também será maligno no camundongo. Se é benigno na criança, também será benigno no camundongo”.

Atualmente, 50 camundongos do biotério fazem parte da colônia reprodutiva, outros 150, aproximadamente, têm os tumores implantados, e há capacidade para dobrar o número de animais usados, chegando até 400 se necessário.

As condições de manutenção são rigorosas, cada animal fica em uma gaiola isolada, com ração e água esterilizadas e controle de ar por filtros, além de paramentação completa dos profissionais, reduzindo riscos de contaminação cruzada.

Impacto para pesquisas e colaboração internacional

Manter tumores humanos vivos em modelos permite investigar alterações genéticas, fatores de agressividade e testar potenciais terapias-alvo, ampliando as possibilidades de colaboração científica.

Hoje, 18 grupos de pesquisa, sendo cinco deles no exterior, mantêm parcerias com o biobanco de Curitiba. O diretor relata que, quando pesquisador precisava de amostra, era Porto que respondia primeiro, mas que hoje o acervo de tumores raros do IPP é referência.

Um exemplo prático descreve o trabalho com um caso tratado no Hospital da Criança St. Jude’s, em Memphis, Estados Unidos, em que uma amostra enviada permitiu crescer o tumor em camundongo e também preservar parte em parafina, mostrando que o tumor era extremamente resistente e agressivo.

Recursos, sustentabilidade e aplicação clínica

O biobanco foi criado por Bonald Cavalcante de Figueiredo e é o único no país usado exclusivamente para amostras pediátricas, intimamente ligado ao hospital filantrópico que atende crianças e adolescentes de média e alta complexidade.

A captação de recursos ocorreu por editais públicos, como do Ministério da Saúde, Capes e Fundação Araucária, e por doações privadas ao hospital. Para o futuro, a estratégia apontada pelo especialista é garantir sustentabilidade oferecendo serviços não lucrativos para outros centros menores.

Pesquisadores que dependem do acervo destacam a importância prática do trabalho, como Cleber Machado, 56, que afirma, “Se não fosse o biobanco, meu projeto não existiria”.

Para Ety Carneiro, diretora-geral do IPP e diretora-executiva do Hospital Pequeno Príncipe, a pesquisa aplicada ao cuidado do paciente é central, e, nas suas palavras, “Nós nascemos do desejo de atender melhor as crianças, e essa ponte entre pesquisa e assistência só é possível com essa infraestrutura que temos hoje.”


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