Aesbe alerta risco de desabastecimento de ácido fluossilícico e estuda importação, companhias pedem suspensão temporária da fluoretação, alta global do enxofre complica oferta

Ácido fluossilícico usado para adicionar flúor à água pode faltar nos próximos meses, com impacto na política de prevenção de cáries, e empresas de saneamento buscam alternativas internacionais.

Sem o insumo, a água segue própria para consumo, porém deixa de receber a fluoretação recomendada por autoridades de saúde, e operadores pedem apoio do governo para evitar penalizações.

As informações sobre o risco e as medidas em curso foram divulgadas por empresas e associações do setor, conforme informação divulgada pela Folha.

Por que a oferta foi afetada

O fornecimento foi interrompido após a fabricante de fertilizantes Mosaic suspender o envio do subproduto, que é obtido na produção de fertilizantes à base de fosfato. A paralisação ocorreu após a escalada do preço do enxofre, matéria-prima crucial, em meio a conflitos no Oriente Médio e ao fechamento do estreito de Hormuz.

Segundo a consultoria Argus, “os preços de enxofre atingiram o patamar de US$ 800 a US$ 900 por tonelada fob (livre de custos de frete ou seguro) do Oriente Médio em 16 de julho, um aumento de 72% na comparação com o início de março.” Essa alta reduz a oferta e eleva custos para produtores do ácido e do subproduto.

Entidades e empresas, medidas e pedidos ao governo

Munir Abud, diretor-presidente da Cesan e presidente da Aesbe, afirma que as empresas estão buscando no mercado internacional substitutos para o fornecimento. Abud alerta para o risco de suspensão da aplicação do produto, e diz, “A tendência é que, com o passar do tempo, uma falha numa entrega dessa [de ácido fluossilícico] pode gerar, de uma forma ou de outra, a suspensão da aplicação do produto na produção da água. Só que nós temos um embargo aí, que é uma lei federal que obriga a inclusão do flúor na água”, diz Abud.

A Aesbe solicitou ao Ministério da Saúde uma reunião para debater o tema e enviou ofício pedindo apoio para “evitar penalização dos serviços de abastecimento de água”. A Abcon, por sua vez, pediu ao Ministério a suspensão da fluoretação por tempo determinado, argumentando que as empresas estão usando reservas dos estoques.

Como algumas companhias reagiram

A BRK informou que aderiu a uma compra emergencial do insumo via importação, junto à fornecedora GR Water Solutions, para reforçar estoques. A Sabesp, por enquanto, disse que não há impacto no processo de fluoretação, pois mantém estoques em níveis adequados e acompanha a situação para avaliar medidas preventivas.

A Equatorial, investidora de referência da Sabesp e da Copasa, optou por não comentar o tema, segundo relato das empresas ao veículo que divulgou as informações.

Risco à saúde pública e contexto técnico

O Ministério da Saúde lembrou que o acesso à água fluoretada é uma determinação da lei federal 6.050, de 1974, e que “O método é recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), e estudos apontam que a medida reduz em cerca de 50% a prevalência de cáries na população”, escreveu a pasta em nota.

Especialistas em mercado apontam que não há expectativa de queda dos preços do enxofre no curto prazo. Jasmine Antunes, da Argus, afirma que “O novo fechamento do estreito de Hormuz deve continuar causando interrupções no comércio de enxofre do Oriente Médio no curto prazo. Muitos compradores estão com estoques baixos de enxofre e alguns optaram por vender enxofre ou ácido sulfúrico para melhorar suas margens.”, segundo a consultoria.

Para a rede de saneamento, o desafio imediato é conciliar a obrigação legal de fornecer água fluoretada e a disponibilidade limitada do ácido fluossilícico, por isso há movimentos simultâneos de compras no exterior, pedidos formais ao governo e avaliação de suspensão temporária do tratamento, com base na própria lei de 1974, conforme as entidades do setor.


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