Tristão e Isolda retorna ao Municipal com produção contida, ênfase na música e direção do Instituto Baccarelli, em uma leitura que valoriza a interioridade das personagens
A montagem em cartaz prioriza a intensidade sonora e a densidade psicológica das personagens, em detrimento de soluções cênicas exageradas, com forte aposta na sobriedade visual.
Projeções discretas e um palco quase vazio permitem que a música de Wagner, especialmente o famoso Prelúdio, conduza a narrativa e revele camadas emocionais, em uma experiência de escuta atenta.
Quase cinco décadas se passaram desde a última apresentação da obra no Theatro Municipal de São Paulo, a estreia também marca a chegada do Instituto Baccarelli à direção dos corpos artísticos da casa, conforme informação divulgada pelo g1.
Sobriedade cênica que deixa a música respirar
A produção de Allex Aguilera, que substituiu a versão de Daniela Thomas, opta pela economia de meios, mantendo os cantores imóveis por longos trechos em um cenário quase vazio. A escolha poderia cansar numa ópera de duração extensiva, porém, ao contrário, preserva a atenção para a linha musical e para o texto.
Ambientes como o convés do navio, o jardim da noite de amor e o castelo de Kareol são sugeridos por vídeos projetados no fundo do palco e nas paredes laterais. Em muitos momentos essas imagens acompanham com discrição o estado psicológico das personagens, mas nas seções instrumentais no início de cada ato, o recurso perde discrição e se transforma em videoclipes, destoando da proposta geral.
Interpretações solistas, virtude e um deslize visual
O elenco principal reuniu nomes de expressão, com Simon O’Neill como Tristão e Annemarie Kremer como Isolda, além dos brasileiros Leonardo Neiva e Luisa Francesconi e do argentino Hernán Iturralde. O’Neill construiu a personagem com cuidado, usando o colorido vocal para seguir os delírios de Tristão.
Kremer chegou sem sinais de cansaço à ária final, conhecida como Liebestod, ou Morte por Amor, em uma interpretação delicada que, no entanto, foi comprometida pela aparição repentina de um letreiro luminoso exatamente no ponto culminante, quando as tensões se resolvem em clímax místico, e a encenação se entregou ao kitsch.
Orquestra afiada e regência focada na cor
Os músicos da Sinfônica Municipal, sob a batuta de Roberto Minczuk, demonstraram afiação técnica e controle dinâmico, conseguindo dialogar em pé de igualdade com as vozes. A condução privilegiou variedade de timbres em vez de mero aumento de volume, estratégia essencial para a imensidão sonora de Wagner.
Como observado na partitura, a obra exige um número de instrumentistas maior que o padrão da ópera de sua época, e a fusão entre orquestra e voz, que Minczuk ressaltou, é um dos desafios centrais da peça.
O sinal artístico para o futuro do Municipal
A mudança para leituras menos interventivas sinaliza que a nova gestão pode privilegiar abordagens mais tradicionais, rompendo com a tendência europeia de releituras contemporâneas radicais. Parte do público pode sentir falta de encenações conceitualmente ambiciosas que atualizem os clássicos frente a demandas sociais.
Mesmo assim, a montagem em cartaz até o fim do mês mostra que uma linha menos intervencionista pode dar bons resultados, desde que se confie na força da partitura, nas vozes e em uma orquestra que saiba traduzir as cores wagnerianas, e é essa confiança que sustenta o êxito musical da produção.

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