Infovias subfluviais do Norte Conectado lançam cabos de fibra óptica na Amazônia, criando rotas alternativas para dar mais estabilidade à internet em cidades ribeirinhas e reduzir quedas
O governo federal implantou redes de cabos subaquáticos em rios da região Norte para criar redundância, diminuir apagões e melhorar a qualidade do acesso, especialmente em pontos onde a fibra terrestre costuma se romper.
As obras fazem parte do programa Norte Conectado, que prevê a instalação de infovias ao longo de rotas fluviais para levar conexão mais qualificada a comunidades urbanas e rurais da Amazônia.
Informações e declarações citadas a seguir foram coletadas em reportagem da Folha durante a inauguração da Infovia 04, em Boa Vista, e em dados do Ministério das Comunicações, conforme reportagem da Folha.
O que são as infovias e qual é a abrangência do projeto
O Norte Conectado é composto por nove infovias, como são chamadas as redes de cabos lançados nos rios, e prevê cerca de 13 mil km de cabos, alcançando 70 localidades, segundo o Ministério das Comunicações.
Conforme o ministério, seis infovias já têm a implantação concluída, são elas, 00, 01, 02, 03, 04 e 07, enquanto três (05, 06 e 08) estão em andamento e devem ficar prontas até 2028.
O programa integra iniciativas anteriores, como o Programa Amazônia Integrada e Sustentável, de 2021, e o Projeto Amazônia Conectada, de 2014, e recebeu recursos do leilão do 5G, com o projeto dentro do Novo PAC, com investimento citado de cerca de R$ 1,3 bilhão, conforme a pasta.
A Infovia 04, que contempla o trecho do rio Branco em Caracaraí, em Roraima, liga Boa Vista a Manaus em uma extensão de 1.182 km de fibra óptica, informou o ministério.
Por que os cabos subfluviais podem reduzir apagões
A EAF, entidade responsável pela execução das infovias, afirma que a fibra terrestre que chega a cidades como Boa Vista se rompe com frequência, gerando interrupções do serviço.
Na inauguração da via 04 em Boa Vista, a CEO da EAF, Gina Marques, disse, “A gente tem aqui muita queda de internet. A ideia é que isso se resolva com a internet que a gente está trazendo agora”, destacando a expectativa de maior estabilidade.
Adriano Vieira, CEO da Ozônio Telecom, parte do consórcio da Infovia 04, explicou que os consórcios responsáveis pela operação funcionam como condomínios, e que a infraestrutura permitirá rotas alternativas. Ele declarou, “O que o consórcio precisa fazer é tomar conta dessa infraestrutura”, e ainda, “Existe uma arrecadação do consórcio, como se fosse um condomínio, que permite ao líder administrar o recurso, pagar fornecedores e, ao mesmo tempo, prestar contas para o governo federal”.
Desafios técnicos, ambientais e a ameaça do El Niño
A instalação de cabos em rios enfrenta desafios distintos dos cabos oceânicos, como variação de profundidade, leitos rochosos e o risco de secas, apontaram os responsáveis pelas obras.
O avanço das instalações também ocorre em meio ao risco climático, e a chegada do El Niño preocupa porque pode aumentar o risco de estiagens no Norte. Gina Marques disse que, “Se houver uma mudança de temperatura ou de condição climática, como estamos vendo no Caribe e em outros lugares, vamos ter que repensar o projeto como um todo, mas estamos preparados para fazer [as ações] conforme o cronograma”.
Os cabos usados no programa têm previsão de uso de até 25 anos, o mesmo tempo de cabos transoceânicos, e passam por reparos preventivos e corretivos durante a vida útil. A escassez de mão de obra também foi citada como desafio pela EAF.
Monitoramento, operação local e impacto para a população
O Ministério das Comunicações anunciou que a Infovia 05, iniciada entre Autazes, no Amazonas, e Porto Velho, conta com uma plataforma de monitoramento que permite acompanhar ao vivo cada etapa do lançamento dos cabos, com dados de GPS sobre posição da embarcação e avanço da instalação.
A estrutura em terra inclui os CMADs, centros móveis de alta disponibilidade, contêineres que recebem os cabos e distribuem os dados da infovia para provedores. Rafael Oliveira, analista de implantação da EAF, resumiu, “São cérebros trabalhando para a infovia não parar”.
Nos últimos anos a região registrou crescimento da internet via satélite da Starlink, mas a EAF aposta que a chegada de uma conexão mais qualificada vai mudar esse cenário. Gina Marques afirmou, “A gente entende que, ao chegar essa internet agora mais qualificada, os provedores vão fazer a parte deles e vão ramificar essa internet [das infovias] para a população, que ao longo de um período vai deixar de utilizar o satélite”.
Para moradores e negócios de cidades ribeirinhas, a expectativa é por menos interrupções e mais opções tarifárias, já que os consórcios podem vender velocidades diferentes a custos variados, usando a infovia como base da oferta.
O que vem a seguir
As obras seguem com a implantação de novas infovias, com cronograma até 2028 para as rotas em andamento, monitoramento em tempo real nas operações e manutenção programada para garantir a durabilidade dos cabos.
Se o projeto cumprir as promessas de redundância e menor custo e qualidade de conexão, a presença de cabos de fibra óptica na Amazônia pode transformar o acesso à internet no Norte, reduzindo a dependência de soluções por satélite e oferecendo maior estabilidade para cidades ribeirinhas.

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