O setor de construção enfrenta uma nova realidade em que ameaças interligadas começam a aparecer antes do arranque das obras, comprometendo cronogramas e viabilidade de projetos.
Eventos climáticos extremos, vulnerabilidades financeiras e escassez de mão de obra foram apontados como os riscos mais severos para o setor nos próximos cinco anos, exigindo mudanças no planejamento e na gestão.
Essas conclusões constam do estudo global Beyond 2030: The Future of Construction, produzido pelo Zurich Insurance Group, conforme informação divulgada pelo Zurich Insurance Group.
Riscos que mais preocupam, e por quê
O levantamento da Zurich destaca que os eventos climáticos extremos lideram o ranking de severidade, com pontuação de 6,2 em uma escala de 7. Segundo o estudo, eventos cada vez mais severos e em regiões historicamente fora de risco estão danificando obras em andamento e reduzindo os tempos de recuperação dos projetos.
Na sequência vêm as vulnerabilidades dos mercados financeiros, com pontuação de 5,7. O relatório diz que, embora haja capital disponível, o mercado tolera menos atrasos e imprevistos, pressionando cronogramas já apertados.
Em terceiro lugar, ficam as dinâmicas do mercado de trabalho, com peso de 5,6, onde não há apenas escassez de mão de obra, mas também concentração de funções e decisões, impulsionada pela digitalização.
Interdependência entre clima, capital e mão de obra
A pesquisa mostra que os riscos deixaram de ser pontuais, passando a operar de forma interdependente. Um evento climático pode interromper cadeias de suprimentos, elevar custos, provocar atrasos, ampliar a exposição financeira e dificultar o acesso ao capital.
Da mesma forma, limitações de infraestrutura, falta de mão de obra especializada ou restrições de financiamento influenciam decisões ainda na fase de concepção dos empreendimentos, aumentando a probabilidade de falhas na execução.
O estudo ressalta que a construção está no centro de transições como digitalização, descarbonização e segurança energética, e que a entrega de ativos complexos e intensivos em capital se tornou menos previsível diante dessas dependências.
O cenário no Brasil, prazos, custos e exemplos
No Brasil, desafios como custo de capital, disponibilidade de mão de obra qualificada e eventos climáticos extremos já pressionam a capacidade de execução, afirmam os autores do estudo vinculado ao relatório global.
Levantamento da Falconi em parceria com a Siange mostra que 71% dos profissionais de construtoras e incorporadoras avaliaram a falta de mão de obra como fator que mais impacta seus negócios atualmente, reforçando a dimensão do problema local.
Além disso, segundo a mesma pesquisa da Falconi, a elevada taxa de juros e custos de materiais e serviços foram citados, respectivamente, por 48% e 37% das empresas como fatores que mais impactam os negócios na construção civil.
Os impactos climáticos também são evidentes, o que fica claro no relatório do Cemaden, Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025, que aponta que eventos climáticos extremos causaram prejuízos econômicos de aproximadamente R$ 3,9 bilhões e afetaram diretamente mais de 330 mil pessoas no país no último ano.
Segurabilidade e resiliência como condição para financiar e executar
Para a Zurich, a solução passa por incorporar a resiliência já no desenho do projeto, com a participação de seguradoras desde o início. A pesquisa afirma que, se um projeto não for segurável, ele pode não ser financiado.
Como sintetizou Kelly Kinzer, Global Head of Construction & Surety da Zurich, “Nossos clientes estão entregando projetos cada vez mais complexos em um ambiente de risco mais volátil, sob prazos cada vez mais apertados. Nossa pesquisa mais recente deixa claro que, se um projeto não for segurável, ele não será financiado. Por isso, incorporar resiliência já no desenho do projeto, com a participação das seguradoras desde o início, é fundamental para viabilizar os empreendimentos”.
Na leitura local, Sven Feistel, diretor executivo de Seguros Corporativos e Subscrição de Ramos Elementares da Zurich Seguros, ressalta que “O maior desafio atual da infraestrutura brasileira não parece ser a falta de projetos, mas a capacidade de executá-los com previsibilidade de prazo, custo e risco. Quando fatores como clima, financiamento, cadeia de suprimentos e mão de obra se combinam, a gestão de riscos precisa fazer parte da viabilidade do empreendimento, ou seja, ser considerada desde o início”.
O estudo também destaca que a segurabilidade deve entrar ao lado de custo, prazo e segurança no planejamento de grandes projetos, porque alterações em preço, capacidade, exclusões ou condições de cobertura podem sinalizar antecipadamente fragilidades técnicas e operacionais.
Recomendações práticas para gestores e investidores
Entre as medidas sugeridas estão a integração precoce de seguradoras e engenheiros de risco ao projeto, avaliação detalhada da exposição climática e infraestrutura, e uso de tecnologias como BIM para reduzir incertezas técnicas.
Soluções de mercado, como seguros de engenharia, seguro garantia, responsabilidade civil profissional, D&O, seguros cibernéticos e serviços de engenharia de risco, podem apoiar na identificação, mitigação e transferência de riscos.
O relatório conclui que o futuro da construção favorecerá organizações capazes de antecipar restrições, gerenciar interdependências e incorporar capacidade de recuperação desde o início, tornando a resiliência uma condição para que projetos sejam financiados, segurados e entregues com previsibilidade.
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